Vírus da mpox circula silenciosamente e pode estar muito mais disseminado do que indicam os registros oficiais
Estudo revela que infecções por mpox entre homens que fazem sexo com homens podem superar em até 33 vezes os casos diagnosticados; descoberta desafia metas globais de eliminação da doença até 2027

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Surtos virais foram combatidos com uma lógica relativamente simples: identificar os doentes, isolá-los e interromper as cadeias de transmissão. Mas um novo estudo publicado nesta quarta-feira (13), na revista Nature Communications, sugere que essa estratégia pode estar falhando no combate à mpox — antiga varíola dos macacos — porque a maior parte das infecções simplesmente não aparece nas estatísticas oficiais.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Kaiser Permanente Southern California e de outras instituições norte-americanas, concluiu que o vírus pode estar circulando silenciosamente entre homens que fazem sexo com homens (MSM, na sigla em inglês) em uma escala muito superior à detectada pelos sistemas de vigilância sanitária.
Segundo os autores, o número real de infecções pode ser até 33 vezes maior do que o total de casos oficialmente diagnosticados. Em outras palavras: para cada caso confirmado de mpox, dezenas de infecções permaneceriam sem diagnóstico.
“O que observamos foi uma transmissão criptográfica extensa, sustentada por infecções subclínicas ou pouco sintomáticas”, afirma o epidemiologista Joseph A. Lewnard, da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia em Berkeley e principal autor do estudo. “Isso muda profundamente nossa compreensão sobre a dinâmica da doença.”
A pesquisa acompanhou 7.930 homens entre 16 e 52 anos atendidos pelo sistema de saúde Kaiser Permanente Southern California, em Los Angeles, durante o verão de 2024. Os cientistas analisaram amostras anorretais coletadas originalmente para exames de infecções sexualmente transmissíveis, como gonorreia e clamídia, e buscaram sinais do DNA do vírus da mpox.
O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores. Embora apenas 15 pessoas tenham recebido diagnóstico clínico oficial de mpox no período, os testes laboratoriais detectaram sinais do vírus em indivíduos que nunca procuraram atendimento por sintomas relacionados à doença.
Os pesquisadores estimaram uma incidência de 20 infecções por 100 pessoas-ano, taxa semelhante à observada para algumas infecções bacterianas sexualmente transmissíveis monitoradas rotineiramente.
“Grande parte das infecções parece ser assintomática ou apresentar sintomas tão leves que não levam os pacientes a procurar atendimento”, explica Sara Y. Tartof, pesquisadora da Kaiser Permanente e coautora do estudo. “Isso significa que o vírus pode continuar se espalhando sem ser percebido.”
Desde o surto global de 2022, a mpox passou a ser associada principalmente a contatos sexuais entre homens que fazem sexo com homens em países onde a doença antes era considerada rara. Naquele momento, imagens de lesões dolorosas e relatos de febre intensa ajudaram a transformar a doença em uma emergência internacional de saúde pública.
Com a queda abrupta dos casos notificados a partir de 2023, autoridades sanitárias internacionais passaram a interpretar o cenário como sinal de controle da epidemia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças estabeleceram metas para eliminar a transmissão sustentada da doença até 2027.
O novo estudo, porém, coloca essa estratégia em xeque.
Os autores afirmam que os critérios atuais de vigilância — baseados principalmente em sintomas clínicos visíveis — podem estar ignorando uma parcela significativa da transmissão viral.
Modelos matemáticos desenvolvidos pela equipe indicam que indivíduos sem diagnóstico podem responder por pelo menos 31% a 44% das transmissões do vírus. Em cenários considerados mais realistas, essa participação poderia chegar a até 94%.
“Os padrões genéticos observados nas linhagens do vírus não podem ser explicados apenas por pacientes diagnosticados”, diz Lewnard. “A transmissão silenciosa precisa estar desempenhando um papel importante.”
A conclusão foi reforçada por análises filogenéticas — técnica que rastreia a evolução genética do vírus — e por uma revisão internacional de estudos realizados em cidades como Berlim, Roma, Nova York e Barcelona.
Em algumas dessas localidades, os pesquisadores estimaram que o número de infecções reais poderia superar os registros oficiais em até 377 vezes.
A descoberta tem implicações diretas para políticas públicas. Atualmente, muitos protocolos internacionais consideram que um surto foi controlado quando não há novos casos locais por três meses consecutivos.
O estudo mostra, no entanto, que essa ausência de diagnósticos não significa necessariamente ausência de transmissão.
Segundo os modelos apresentados, mesmo sem nenhum caso registrado durante três meses, ainda poderia haver dezenas de infecções em circulação.
“Isso sugere que estamos olhando para a ponta do iceberg”, afirma Miguel I. Paredes, pesquisador do Fred Hutchinson Cancer Center, em Seattle, e coautor do trabalho.
Os dados também apontam um possível efeito da vacinação com o imunizante JYNNEOS, utilizado contra a mpox. A vacina demonstrou proteção de cerca de 72% contra casos diagnosticados da doença.
No entanto, muitos dos indivíduos com infecção subclínica identificados no estudo já haviam sido vacinados. Para os autores, isso pode indicar que a imunização reduz a gravidade dos sintomas sem impedir completamente a infecção.
A interpretação reforça a ideia de que a vacinação continua essencial para evitar quadros graves, mas talvez não seja suficiente para bloquear integralmente a circulação viral.
Outro aspecto que preocupa os cientistas é a baixa cobertura vacinal entre jovens. O estudo identificou que homens mais jovens apresentavam menores taxas de vacinação e menor frequência de testagem para infecções sexualmente transmissíveis.

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“Há uma nova geração entrando em redes de maior exposição sem proteção imunológica adequada”, alerta Tartof.
Especialistas independentes consideram que os resultados podem alterar a forma como sistemas de saúde monitoram surtos infecciosos associados à transmissão sexual.
Desde o início da pandemia de covid-19, epidemiologistas passaram a reconhecer que infecções assintomáticas podem sustentar cadeias de transmissão invisíveis por longos períodos. O estudo da mpox sugere que um fenômeno semelhante pode estar ocorrendo agora.
A diferença é que, enquanto a covid se espalhava principalmente por vias respiratórias, a mpox depende de contatos íntimos e redes sexuais específicas — o que dificulta ainda mais o rastreamento epidemiológico.
Os autores defendem que programas de vigilância sejam ampliados para incluir testagem de indivíduos sem sintomas em populações consideradas de maior risco.
Também sugerem campanhas contínuas de vacinação e estratégias permanentes de monitoramento laboratorial.
“O declínio dos casos notificados não deve ser interpretado automaticamente como sinal de eliminação da doença”, escrevem os pesquisadores no artigo.
A mpox foi identificada pela primeira vez em seres humanos na década de 1970, na África Central, mas permaneceu durante décadas limitada a surtos regionais associados ao contato com animais silvestres.
A explosão global registrada em 2022 alterou completamente o perfil epidemiológico do vírus, transformando a doença em um desafio sanitário internacional.
Agora, o novo estudo sugere que o vírus pode ter encontrado uma forma ainda mais difícil de ser combatida: a circulação invisível.
Para os pesquisadores, ignorar essa possibilidade pode significar repetir erros já vistos em outras epidemias recentes.
“Se a transmissão silenciosa estiver realmente sustentando a circulação do vírus, as estratégias atuais precisarão ser profundamente revistas”, conclui Lewnard. “Caso contrário, estaremos combatendo apenas os casos visíveis, enquanto a epidemia continua avançando fora do radar.”
Referência
Lewnard, JA, Paredes, MI, Yechezkel, M. et al. Circulação críptica extensa sustenta mpox entre homens que fazem sexo com homens. Nat Commun 17 , 4198 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72749-2